História

Criado em Oswaldo Cruz, Marquinhos teve a oportunidade de conhecer pessoas que foram marcantes na sua formação de sambista. Desde cedo, conviveu com Argemiro, Monarco, Alberto Lonato, Jair do Cavaquinho, Casquinha, Tia Doca e Manacéia. E a partir desses contatos, unifica seu trabalho musical com movimentos de valorização do bairro de Oswaldo Cruz, tais como o “Acorda Oswaldo Cruz” e a recriação do Pagode do Trem, realizado no dia 2 de dezembro, em comemoração ao Dia Nacional do Samba, sempre destacando a centralidade do bairro na história do samba.

O bairro de Oswaldo Cruz não tinha sua história cultural reconhecida por todos os cariocas na década de 80, quando Marquinhos lidera um grupo de músicos, que o acompanham, cantando e tocando dentro de trem,criando a maior festa de participação popular da cidade do Rio de Janeiro: o Pagode do Trem, também conhecido como Trem do Samba. Atualmente, cerca de 70 mil pessoas, no dia dois de dezembro, embarcam nos trens que partem da Central do Brasil para cantar e dançar com Marquinhos de Oswaldo Cruz e seus convidados, em uma viagem até o bairro de Oswaldo Cruz, berço do samba carioca.

A vida musical de Marquinhos de Oswaldo Cruz iniciou-se nas mais famosas rodas de samba dos subúrbios cariocas: no Pagode da Tia Doca, no Pagode de Argemiro da Portela, no Pagode do Serrão, no Pagode do Cacique de Ramos e no Pagode Centro Cultural Lima Barreto. Em 1997, com o movimento Samba de Raiz, Marquinhos lidera a roda de samba sob os Arcos da Lapa, onde um público maior tomou conhecimento desse samba. Em 1996, longe de ser o grande reduto boêmio, a Lapa vivia um profundo ostracismo com o fechamento do Circo Voador, que construiu um ar “pop” na região. Sim, era a Lapa de todas as tribos, exceto a tribo do samba. Perplexo com a declaração infeliz de um cantor que se aventurava pelo mundo do samba, de que já não existiam mais sambistas nos morros e nos subúrbios, Marquinhos de Oswaldo Cruz busca um espaço no centro ou na zona sul, para que esse outro lado da cidade pudesse conhecer o trabalho dos sambistas dos morros e dos subúrbios.

marquinhos

BIOGRAFIA

“Ventos que sopravam as velas pelo oceano. Ventos que empurraram os negros, vielas acima.Ventos que sopraram pelas correntezas dos trilhos aos longínquos subúrbios. Ventos que sopram minha alma, minha cultura, minha memória.”
Hoje percebo a contemporaneidade da diáspora africana. Ouço o grito guardado em minha alma-memória:- É campeã! – para minha querida Portela. Revejo a imagem de Candeia entrando na recém inaugurada sede da Portela, com seu olhar onipresente, em 1972, com todos os olhares voltados para ele.

Quantas lágrimas derramo em meu peito de saudades das “aulas” matinais na padaria com Argemiro e Monarco; das aulas de Manacéia, que deixou de ser freguês da loja de meu pai,ao saber que ele não queria que eu me tornasse sambista . São eles, heróis de uma história de quase um século, transmitida pela cultura milenar da oralidade. Carregam em seus sambas alegria, sonhos e lágrimas de um povo. Assim, conseguiram resistir às várias formas de silenciar o samba como expressão da cultura negra brasileira. Silenciamento simbolizado na pancada da polícia ou ainda nos tempos áureos do rádio em que o samba era ouvido, mas com uma batucada sussurrante e nunca cantado com nossa voz . Como foi difícil para um jovem militante conseguir entender que os ídolos de seus pais que, as vezes, ainda passam anônimos em suas comunidades , construíram a história de resistência mais poética da nossa cultura.
Logo eu, tão certo de possuir a verdade e que me considerava um profundo conhecedor de todas as formas possíveis de organização… Logo eu, que não reconheci a importância poética/pedagógica das rodas de samba, em 1997, sob os Arcos da Lapa, que fizeram reviver os seus bons tempos de ocupação do espaço público… Foi assim, sob o poder de melodias, letras e pela magia da batucada, que me fiz sambista.

Citando Candeia: “cego e quem vê só aonde a vista alcança”. Hoje, posso enxergar além das grades desta prisão cultural unitária. Prisão esta que nos condena a pena de não podermos olhar para o espelho, e vermos o quanto bonitos nós somos. Prisão esta, que veda nossos olhos para que não possamos enxergar, que não só a escola formal é produtora de conhecimento e que muitos saberes estão exilados de nós, nos botequins, esquinas e nas calçadas.Busco, todos os dias, construir a minha identidade de sambista. Retrato em meu corpo, a minha alma. Ecoa em minha voz, o sussurro de meus ancestrais.

Faço da ética e dos meus princípios os pilares centrais da minha carreira, mesmo que receba, às vezes, a solidão como recompensa. Também tenho um sonho. Quero poder cantar para os descendentes dos que construíram (e continuam a construir até hoje) a minha arte. Cantar para lembrar aos moradores dos morros e subúrbios do etnocídio a que somos submetidos diariamente pelos detentores e defensores do pensamento hegemônico.