Release Herança do Samba

Guardião da identidade carioca

Por Aydano André Motta

A figura sisuda, imóvel e atenta, por vezes uniformizada, acompanha a imagem convencional do guardião. A terra carioca oferece outro estilo de vigia, que carrega, em ritmo e poesia, a missão de proteger e preservar um dos alicerces de nossa identidade: o samba. Pelo talento deles, floresce a música apaixonante, da magia que se renova à eternidade. Como as que constroem esta obra de Marquinhos de Oswaldo Cruz – o trabalho definitivo de um bamba.

Pelas músicas, desfilam emblemas da cultura popular, cenários inspiradores de sambistas de todas as épocas, as crenças mais sólidas e as histórias que conjugam humor, paixão e a vida cotidiana, na sua crueza, na sua poesia. Ainda celebram baluartes que ajudaram a firmar o encanto brasileiro. Produzida pelo maestro Ivan Paulo (autor também dos arranjos), sob direção de Ana Muller, uma dúzia de joias para ouvir, decorar, esquecer jamais.

A primeira delas pavimenta a conexão Rio-Bahia, de “Santo Amaro, Cachoeira, Oswaldo Cruz e Madureira”, como ensina o refrão-acalanto de “Santo Amaro a Madureira”, sob as bênçãos de “Oxum oraieieôoraieieôoraieieô”. A participação das Yabás – protagonistas da feira incrível, mantida por Marquinhos em domingos mensais na Praça Paulo da Portela, na Oswaldo Cruz que o batiza – enfeita a canção, reverência a quem merece: “Já pedi a mãe Luiza / para abençoar/ Tia Doca, Tia Surica/ vem aqui sambar/ Na lavagem ou boa morte / eu também vou lá”. Um espetáculo.

É com as mães garantidoras da comida africana da feita que surge um potpourri extraído das mais legítimas rodas de samba. Depois, vem o “Malandro Chiclete”, o que “Diz que é matador, do Fumacê o vapor/ Só se for do mata mosquito que ele vos fala”, viagem de Marquinhos pelo humor ferino dos bambas.

Hora de revirar o ritmo, para o amor doído e intenso que inspira as grandes composições. “Amanheceu dos teus olhos um dia raiou/ Com audácia de um predador/ Feito um mar que se apossa da areia/ E invadiu, eu nem vi a chegada do amor/ Que o meu peito tomou sem pudor/ E eu deixei me levar”.


 

Além das águas do Atlântico, o sol que está no DNA da capital do samba anuncia “Dia 02 de Dezembro”, parceria com o grande partideiro Serginho Procópio, para celebrar a data da nossa música, que viaja no trem em traje de festa (outro evento mantido pela determinação de Marquinhos).
Em seguida, “Cai a tarde pra levar, toda sombra da gente/ Lá pro fundo do poente, tem o por do sol e o amor./ Vem nas águas, bem em frente/ O adeus sem luz também se por”, primor criado na união luxuosa com Toninho Nascimento. Porque o Rio serve de base a toda inspiração – inclusive a do idioma que brota no gueto e se renova para ganhar o mundo, tema de “Perdeu, mané” (na qual Pedro Luiz marca presença).

Preciosidades – como as cadeiras da nega, o tema de “Ouro Tesouro”, fruto da parceria com Ivan Milanês e Xandy de Pilares. Ou a história de outra mulata, a “Nega do Rato Molhado”, que “Fez um penteado, esticou o cabelo, foi pro Jacaré/ Mas a danada da chuva/ Fez cabelo andar de ré/ Não volta nem com reza na Penha”.

A celebração inegociável ao ritmo mais carioca volta no desfecho do trabalho, num trio de composições magistrais. Ensina “Herança” que “Meu samba é terno, e é doce (…)/ Ardente, como em ferro fosse/ Em brasa pra não se apagar”. A descrição da melancolia dos bambas vem em “Mártires dos meus sonhos”, onde “O relógio apressado/ Rouba o tempo, furta o dia/ Madrugada acordado, o chinelo encostado/ A poltrona vazia…”

Por fim, Marquinhos firma o compromisso com o gênero musical de sua vida em “Fechou o tempo”, o manifesto pela sua arte. “Eu quero ver você no samba,/ Tirar um verso de um paletó sem manga/ Mostra que o samba manda,/ És corda eu sou caçamba”.
Que sejam eternos os abençoados guardiões da música que decifra os brasileiros como povo e raça. Amém.